20 Centímetros...

Para 85% dos casais que desejam ter filhos, essa distância não tem a menor importância. Aliás, na maioria das vezes, não saberiam do que estamos falando. Entretanto, para os outros 15% complementares, ou seja, casais que estão tentando a gravidez naturalmente e não conseguem, esses 20 cm têm muita importância.

Mas, afinal, que distância é esta?

Essa é a distância que os espermatozoides, depositados no fundo da vagina imediatamente após a relação sexual, têm que percorrer dentro do sistema reprodutor feminino, para atingir o óvulo e fertilizá-lo.

1290351_41208385Bem, uma vez caracterizada essa distância e a importância dessa “viagem”, vamos voltar um pouco e tomar melhor “pé do assunto”.

Para tanto, temos que apresentar para aqueles que nos acompanham os componentes reprodutivos do homem e da mulher.

1029953_21713192O homem não vem aqui, em primeiro lugar, por acaso, pois, se ele não for capaz de depositar dezenas de milhões de espermatozoides com qualidade no fundo da vagina, não temos como discorrer sobre o verdadeiro espetáculo orquestrado que ocorrerá no interior do corpo feminino.

Em condições normais, o homem possui, para reprodução, dois testículos, dois epidídimos, dois dutos deferentes (essas estruturas anatômicas encontram-se dentro da bolsa testicular ou escroto). Mais internamente, os dois dutos deferentes saem do escroto e penetram profundamente na pelve masculina, por trás da bexiga. Nessa região, os dois deferentes juntam-se aos dutos das vesículas seminais, atravessam a próstata e atingem a uretra. Pela uretra, com o pênis em ereção e, imediatamente após o orgasmo, mais de 100 milhões de espermatozoides são depositados no fundo da vagina, bem próximos do colo do útero (um centímetro).

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Antes de prosseguirmos com a nossa “viagem”, temos que apresentar as estruturas femininas.

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Para a reprodução a mulher apresenta: a vagina, o útero, as duas tubas uterinas (uma de cada lado do fundo do útero) e os dois ovários.

Dito isso, retomemos nosso caminho e voltemos a pensar nessa grande “viagem” de apenas 20 cm. Mas afinal, em termos absolutos, 20 cm não parece “grande coisa”. É, de fato, mas as aparências, quase sempre enganam!!!

284546_2723Pensemos no tamanho dos espermatozoides. Afinal, são eles que terão que “nadar” nestes 20 cm. Um espermatozoide mede, aproximadamente, 70 micrometros. Para evitar mais uma consulta à internet, micrometro é a milésima parte de um milímetro, ou seja, 1 micrometro equivale a 0,001 milímetro. Portanto, um espermatozoide mede 0,07 mm.

Que os homens não escutem, ou melhor, não leiam, mas que “serzinho pequenino”!

Agora sim, após todas essas informações, podemos aceitar que para um espermatozoide “nadar” 20 cm, em menos de uma hora (depois eu explico melhor essa uma hora) não é nada fácil não.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara termos uma melhor ideia dessa distância, um homem de 1,70 metros terá que nadar, aproximadamente, 5 km em menos de uma hora. Quantos homens estariam aptos a se candidatarem?

Melhor olhar “aquele serzinho” com um pouco mais de respeito.

298471_8046Em 1677, Antoni van Leeuwenhoekos, por meio de uma lente de aumento, bem rudimentar, ao observar o sêmen, viu muitos pontos se “mexendo” e chamou-o de Sêmen Animal !!!       Que sabedoria!

Desse momento em diante, tenho certeza de que, quem percorre estas linhas, não duvida mais que 20 cm pode ser uma enorme distância. Mas acreditem, essa imensa distância, é apenas o começo de uma viagem bem atribulada que os espermatozoides têm que fazer para chegar ao local onde se encontra o óvulo, que não tem movimentação própria.

Em verdade “vos” digo, as dificuldades dessa travessia iniciam antes mesmo dos espermatozoides serem depositados no fundo da vagina. O primeiro obstáculo ocorre ainda dentro da própria uretra masculina, pois nesse local, sempre há um pouco de resíduo de urina que tem um pH ácido (em geral entre 5 e 6). Ora, o sêmen, apresenta pH francamente alcalino (geralmente superior a 8) e os espermatozoides não toleram acidez.

Felizmente, o próprio homem resolve essa primeira dificuldade. Durante o período de excitação, ele produz uma secreção transparente (vinda das glândulas bulbo-uretrais), alcalina e muito viscosa. Essa secreção tem pelo menos duas finalidades: a primeira delas é de proteção dos espermatozoides durante sua passagem pela uretra (lembrem-se do pH); a segunda, de lubrificação da glande do pênis, o que facilita em muito, a penetração do pênis na vagina, pela diminuição do atrito. Quanta química!!!

MINOLTA DIGITAL CAMERACalma, tem mais química por vir. A luta pela sobrevivência não para por aqui. Assim que os espermatozoides são depositados no fundo da vagina, outro obstáculo químico ainda maior se apresenta. Só que, desta vez, é pelo lado feminino. As células do epitélio vaginal, ou seja, as células que revestem a vagina por dentro são muito ricas em teor de glicogênio. Essa substância, quando liberada pelas células vaginais, na luz da vagina, é transformada por ação de bilhões de bactérias, em ácido lático. Como consequência, o pH da vagina é extremamente ácido, próximo de 4,5. Sem proteção e neste pH, aproximadamente 100% dos espermatozoides morrem em menos de uma hora (… lembram-se dessa uma hora lá atrás?).

1284218_85820826Como sobreviver? A partir daí, a mulher assume. Mas, como não poderia deixar de ser, sob algumas condições. O canal cervical, que corresponde à parte mais baixa do útero (colo do útero) e, que está em contato com a vagina pelo do orifício do colo uterino, produz uma substancia chamada de muco cervical.

Mulheres com ciclos regulares estão acostumadas com ele. O muco é uma substância muito viscosa, transparente (não é branca, é transparente), muito parecida com um gel. Ele é liberado em maior quantidade, 24 a 48 horas antes da ovulação. Esse período é considerado o mais fértil da mulher. Função? Proteger todo o sêmen próximo do colo contra a acidez vaginal. Para tanto, o muco é bastante alcalino, com pH acima de 7,0.

Mas nem tudo é facilidade. Ao mesmo tempo em que protege, o muco também cria dificuldades.

1408558_48696422Fisicamente, é como se ele fosse uma rede muito fina, extremamente fina. Tão fina que a cabeça do espermatozoide quase não passa. Ela tem que ser perfeita para atravessá-lo.

Finalidade? Seleção. Ou seja, ao mesmo tempo em que protege, ele também seleciona. Apenas os espermatozoides vivos, vigorosos e com boa motilidade conseguem atravessá-lo. Assim, somente os melhores de cada ejaculado terão a chance de atravessar a cavidade uterina.

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Antes de continuarmos, vamos relembrar que, no fundo da cavidade uterina, desembocam as duas tubas, uma de cada lado do útero. Voltando à nossa estória, após atravessarem o canal cervical, os espermatozoides avançam superiormente em direção as elas. Porém, contrariando a lógica anatômica, a entrada nas tubas não é proporcionada.

1411793_90581779Graças a mecanismos hormonais e químicos, os espermatozoides são atraídos para a tuba uterina cujo ovário desenvolveu o óvulo naquele ciclo. Ela é uma estrutura anatômica que está dividida em 4 segmentos: o primeiro segmento é o intramural. Como o próprio nome sugere, ele atravessa a musculatura do útero e entra em contato com a cavidade uterina ou endometrial. O segundo segmento denomina-se istmo; o terceiro, ampola e, o quarto e último é o infundíbulo.

Porque descrevemos todos os segmentos das tubas uterinas? Pois, só assim, conseguiremos passar uma idéia melhor dos fenômenos físico-químicos que lá acontecem.

Assim, no período pré-ovulatório, todo o movimento do fluido existente na cavidade e tubas uterinas, decorrente das contrações musculares e movimentação dos cílios existentes, se faz no sentido de favorecer a subida dos espermatozoides para encontrar o óvulo. Todavia, assim que a mulher ovula, o movimento desse fluido acontece no sentido contrário agora, ou seja, o fluido vai da tuba para a cavidade uterina.

1398156_23101430O que isto significa? O aparelho feminino está fazendo todo o possível para que o quarto segmento da tuba uterina (infundíbulo) faça a captação do óvulo liberado pelo ovário e o transporte em direção à cavidade uterina.

Qual a consequência disso? Os espermatozoides que estavam recebendo vento de popa, em direção ao ovário (que produziu o óvulo), agora, recebem o vento de proa. Aliás, quando muitos já morreram e o restante dos espermatozoides vivos, quase não tem mais energia, surge um movimento no sentido contrário.

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Não faz sentido? Faz todo o sentido sim! O sentido da vida. Apenas os melhores e mais competentes conseguem chegar aonde está o ovulo. Esse encontro, na maioria das vezes, se dá no terceiro segmento da tuba, a região ampolar.

Quando os espermatozoides atingem o óvulo (acredita-se que aproximadamente apenas 100 espermatozoides) e entram em contato com a zona pelúcida (camada mais externa do óvulo) somente o mais competente consegue atravessa-la e fertiliza-lo.

Imediatamente após a penetração de um único espermatozoide, a zona pelúcida sofre uma modificação química extremamente marcante e nenhum outro consegue penetrá-la. Esse é o momento em que surge a nova vida, um novo ser.

Mas ainda não terminamos. Lembre-se que tudo que acabamos de descrever ocorreu na região ampolar da tuba uterina.

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Agora, já temos o embrião, e a tuba continua com o fluxo no sentido do útero, até que, finalmente, o embrião atinja a cavidade uterina e ocorra a implantação.

FIM!       OU MELHOR,  O COMEÇO DE TUDO!!!