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Estatistica americana 2019

icsiA tabela abaixo mostra as taxas de gravidez obtidas, em procedimentos de fertilização in vitro,  em casais que utilizaram seus próprios óvulos. Trata-se de uma estatística cumulativa feita nos Estados Unidos,  referente ao ano de 2019. Existiram casais com mais de uma causa de infertilidade, razão pela qual a soma dos ciclos, referentes a cada fator isoladamente, é superior ao total de ciclos por todas as causas.

idade da mulher (anos) <35 35-37 38-40 >40 total de ciclos
fator masculino (%) 55,3 41,4 26 9,5 40719
Endometriose (%) 45 33,5 22,4 7,4 9591
fator tubário (%) 52,8 38,5 24,8 8 15666
alteração na ovulação (%) 57 44,8 30 10,4 18154
fator uterino (%) 47,4 33 22,4 5,8 8318
baixa reserva ovariana (%) 32,5 26,2 18,2 5,9 47107
aborto de repetição (%) 47,4 37,1 26,3 11,9 6765
sem causa aparente (%) 53,6 39,4 27,9 11,3 15543
 
todas as causas (%) 52,7 38,9 24,4 7,9 138328

Esta tabela nos mostra, entre outras coisas, que:

1…de todas as causas de infertilidade, as mais frequentes (em vermelho) foram as causas masculinas e, dentre as femininas, a baixa quantidade de óvulos nos ovários (reserva ovariana).  Em geral, problemas de fertilidade masculina não produzem sintomas, e são detectados apenas pelo espermograma. Não é habitual ao homem realizar este exame; assim, as causas masculinas ficam, de certa forma, “ocultas”, até que o casal procure o médico especialista. Da mesma forma, a  reserva ovariana pode ser reduzida mesmo em pacientes que menstruam com regularidade, podendo ser avaliada pelo médico especialista por meio de  dosagens hormonais e ultrassonografia.

2…levanto-se em conta todas as causas de infertilidade (azul, na tabela), a taxa de gravidez se reduz com a idade: aos 35-37 anos é praticamente a metade do observado nas pacientes com menos de 35 anos e,  aos 40 anos ou mais, esta taxa é mais de 6 vezes menor que nas pacientes com menos de 35 anos.  Mais uma vez, mostra o efeito negativo da idade na fertilidade feminina. Assim, se a paciente vai protelar a gravidez, é aconselhável realizar o congelamento dos óvulos.

3…pacientes com baixa reserva ovariana (marron na tabela) são as que tem menores taxas de gravidez, o que ocorre mesmo em pacientes com menos de 35 anos. Dosagens hormonais e ultrassonografia podem evidenciar o problema e aqui, mais uma vez, se a gravidez for postergada,  a recomendação é para o congelamento de óvulos: quanto menor a idade, maior a chance de obter boa quantidade de óvulos criopreservados.

4…as taxas de sucesso mais altas se concentram principalmente em casais cuja infertilidade ocorre por fator masculino (corrigidos por meio de  injeção intracitcoplasmática de espermatozoides  nos óvulos – ICSI – ), por problemas de ovulação (corrigidos por meio da estimulação controlada dos ovários)  e na infertilidade sem causa aparente.

Dessa forma, embora a fertilização in vitro seja um bom recurso para a obtenção da gravidez, a tabela permite concluir que:

a) a chance do casal engravidar, nos Estados Unidos, não chega a 60%;

b)  casais com problemas diferentes têm taxas de sucesso diferentes e,

c) dentre esses problemas, a idade da mulher parece ser o mais importante, na determinação da taxa de sucesso.

Fonte: https://nccd.cdc.gov/drh_art/rdPage.aspx?rdReport=DRH_ART.ClinicInfo&rdRequestForward=True&ClinicId=9999&ShowNational=1#rdTabPanel-tab2

 

 

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Alimentação saudável na pré-concepção

ingridDra. Ingrid Chaves

Nutricionista do Setor Integrado de Reprodução Humana da Universidade Federal de São Paulo
Técnica em Nutrição e Dietética pela Escola Técnica Carlos de Campos
Graduação em Nutrição pela Universidade São Judas Tadeu – São Paulo
Especialização em Nutrição em Saúde Pública pela Universidade Federal de São Paulo
Especialização em Docência do Ensino Superior pela Universidade Nove de Julho – São Paulo
Mestrado em Ciências – Disciplina de Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo
Especialização em Nutrição Clínica pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo
Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA).

 

Pré-concepção é o período que antecede a gravidez, crucial para o estabelecimento e desenvolvimento de uma gestação saudável. Ações de promoção da saúde e prevenção de agravos, implementadas nesse período, contribuem para uma gravidez mais saudável. Dentre estas ações, está a promoção da alimentação e nutrição adequadas.

O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014, contém informações e recomendações sobre a escolha, preparo e consumo de alimentos, visando a promoção da saúde de todos os brasileiros. Segundo as evidências científicas atuais, dietas saudáveis contendo peixes, frango, grãos integrais, frutas, azeite de oliva, verduras e legumes se relacionam positivamente com a fertilidade da mulher e a qualidade seminal do homem.

Uma alimentação saudável se fundamenta em quatro pilares:

 

1 -Comece fazendo boas escolhas: prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias, a alimentos ultraprocessados.

l  no almoço e no jantar, prefira comida feita em casa ou locais que sirvam “comida caseira feita na hora”, além de frutas frescas ou sobremesas à base de frutas.

l  nas pequenas refeições (de manhã e à tarde), opte por preparações com frutas frescas ou secas, castanhas, iogurtes naturais ou leite.

l  evite comer guloseimas, bolachas, salgadinhos de pacote ou bebidas adoçadas, seja durante as refeições, seja “beliscando entre elas”.

 

2-Cozinhe mais: procure cozinhar em casa, seja sozinho ou acompanhado, e divida as tarefas da rotina alimentar.

l  dividir as responsabilidades entre todos da casa é essencial para evitar que uma pessoa fique sobrecarregada.

l  organize sua despensa! Tenha em casa alimentos como arroz, feijão, macarrão, frutas, verduras, legumes, e temperos naturais para preparar refeições saborosas e saudáveis.

l  procure comprar em mercados de bairro, feiras livres ou de produtores, sacolões e varejões. Estes locais oferecem uma grande variedade de alimentos in natura e minimamente processados.

 

3-Coma com calma e em ambientes apropriados: coma sempre devagar e aprecie o que está comendo, sem se envolver com outra atividade.

l  procure fazer as refeições nos mesmos horários todos os dias, e comer com atenção e sem pressa. Além de favorecer a digestão, evita que você coma mais do que o necessário.

l  busque sempre comer em locais limpos, confortáveis, tranquilos, e onde não haja distrações.

l  prefira comer à mesa e na companhia de amigos e familiares, a fim de tornar agradável o momento da refeição e fortalecer as relações entre vocês.

 

4-Dedique-se à sua alimentação: dê à sua alimentação o espaço que ela merece.

l  procure planejar e organizar todas as refeições do seu dia, sem recorrer a comidas prontas ou embaladas.

l  use a criatividade: diversifique as combinações dos alimentos nas refeições. Varie os tipos de frutas, verduras, legumes, cereais e feijões.

l  colabore para a construção de um sistema alimentar sustentável, preferindo alimentos locais, da época, orgânicos e de base agroecológica.

Com esses cuidados, é possível iniciar uma alimentação saudável e adequada, que possibilite um bom estado nutricional para engravidar com saúde, e o principal: proporcionar ao bebê, já neste tempo tão precoce de vida, um desenvolvimento pleno e favorável à sua saúde futura.

 

Referências:
Borges ALV, et al. Preconception health behaviors associated with pregnancy planning status among Brazilian women. Rev Esc Enferm USP. 2016;50(2):208-215.
Chavarro, JE e Schiaf, WD, 2018. Impact of nutrition on reproduction: an overview. Fertil Steril 2018 Sep; 110(4): 557-559.
Gaskins, AJ e Chavarro,JE, 2018.Diet and fertility: a review. Am J Obstet Gynecol 2018 Apr; 218(4): 379-389.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira, 2014.

 

 

 

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Suplementos nutricionais em Reprodução Humana: o que devemos saber

ingridDra. Ingrid Chaves

Nutricionista do Setor Integrado de Reprodução Humana da Universidade Federal de São Paulo
Técnica em Nutrição e Dietética pela Escola Técnica Carlos de Campos
Graduação em Nutrição pela Universidade São Judas Tadeu – São Paulo
Especialização em Nutrição em Saúde Pública pela Universidade Federal de São Paulo
Especialização em Docência do Ensino Superior pela Universidade Nove de Julho – São Paulo
Mestrado em Ciências – Disciplina de Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo
Especialização em Nutrição Clínica pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo
Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA).

Suplementos nutricionais ou alimentares são, no geral, produtos em formulações farmacêuticas para uso oral, contendo nutrientes e substâncias bioativas, isolados ou combinados, com o objetivo de complementar a dieta de pessoas saudáveis. Devem ser usados quando as necessidades nutricionais de um indivíduo não são atendidas por meio da alimentação. Seu uso, de forma indiscriminada ou rotineira, não é indicado: apenas médicos e nutricionistas podem prescrevê-los a você.

Em reprodução assistida, os suplementos nutricionais são denominados, de maneira geral, como antioxidantes, que englobam vitaminas, minerais, alguns tipos de ácidos graxos e aminoácidos capazes de, além de nutrir e atuar em suas funções orgânicas primordiais, também reduzir o estresse oxidativo em nossas células.

Quando em desequilíbrio, o estresse oxidativo e seus produtos causam danos aos óvulos e espermatozoides, podendo prejudicar os resultados do tratamento de reprodução assistida. Os nutrientes mais estudados e utilizados como suplementos para o aumento nas chances de engravidar são melatonina, ácido fólico, coenzima Q10, mioinositol, carnitina, N-acetil-cisteína, vitamina D, zinco, selênio, vitaminas E e C, e ômega 3. Entretanto, até o momento, as evidências científicas sobre o efeito dos antioxidantes no aumento  das taxas, tanto de gravidez clínica quanto de nascidos vivos, são limitadas e de baixa qualidade, insuficientes para justificar o uso de suplementos nutricionais específicos, por homens e mulheres com infertilidade.

Pode ser que os antioxidantes sejam, de fato, úteis. Mas, no momento, não possuímos comprovação científica substancial para confirmarmos uma ação favorável na reprodução humana.. O pequeno número de estudos em seres humanos, feitos com amostras pequenas; o relato inadequado de métodos utilizados nas pesquisas e a imprecisão e inconsistência dos dados obtidos são fatores que dificultam a compreensão da utilidade desses suplementos.

Casais com infertilidade são altamente motivados a explorar todas as vias de tratamento para realizar o desejo de ter um bebê saudável, frequentemente se utilizam de suplementos orais, na expectativa de melhorar suas chances de concepção. A percepção geral é a de que suplementos não trazem danos, apenas benefícios: mas não é bem assim.

Em sua maioria, os suplementos não são regulamentados, apesar de estarem prontamente disponíveis para compra. Ainda está por ser demonstrado algum efeito positivo dos antioxidantes na fertilidade e, principalmente, se podem ou não estar associados a algum risco. Para isso, são necessários maiores ensaios clínicos randomizados, melhor desenhados e controlados; além do estabelecimento de sua relação dose-efeito e dos resultados que possam oferecer.

Antes mesmo de se perguntar “ O que eu posso tomar para aumentar minhas chances de engravidar? ”, é importante, para o autocuidado em saúde, implementar ações de mudança do estilo de vida, já amplamente comprovadas quanto ao seu benefício: se exercitar, fazer melhores escolhas alimentares,  cessar o consumo de cigarro e álcool.

Consulte seu médico e/ou nutricionista, especialistas em reprodução assistida: eles poderão a orientação quanto ao uso de suplemento alimentar mais adequado para você.

Produção: Luiz Leite

Referências:

ANVISA. RDC 243 de 26 de Julho de 2018.
Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Micronutrient Supplementation. J Acad Nutr Diet. 2018;118(11):2162-2173.
Jing Lin and Ling Wang.Oxidative stress in oocyte and embryo development: implications for in vitro systems. Antioxidants & Redox Signaling.Jun 2021.34(17);1394-1406.
Showell MG, et al . Antioxidants for female subfertility. Cochrane Database of Systematic Reviews 2020, Issue 8. Art. No.: CD007807
Smits RM, et al. Antioxidants for male subfertility. Cochrane Database of Systematic Reviews 2019, Issue 3. Art. No.: CD007411.
Garolla A, et al. Dietary Supplements for Male Infertility: A Critical Evaluation of Their Composition. Nutrients. 2020 May 19;12(5):1472.

itagliano A, et al. Dietary Supplements for Female Infertility: A Critical Review of Their Composition. Nutrients. 2021 Oct 11;13(10):3552.

 

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A revolução vitoriosa da mulher: pílula anticoncepcional

pionniers-pilule-histoire-inventeurs-scientifiques-Sanger, Pincus, McCormick e Rock (https://www.marieclaire.fr/,pilule-revolution-sexuelle-feminisme-saga,836844.asp)

As mulheres devem passar grande parte da vida em casa, cuidando dos filhos e cozinhando. Não podem andar desacompanhadas, devem estudar apenas o necessário, e não trabalhar se forem casadas. Coisas como carreira, dinheiro e poder são atribuições exclusivas do homem.

guerra1Longe de significar um dogma de alguma seita radical, essa era a condição da mulher na sociedade europeia do início do século XIX. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e com a convocação de todos os homens sadios para o front, mulheres foram “obrigadas” a cuidar das cidades, exercendo trabalhos antes delegados apenas aos homens. Durante a Segunda Grande Guerra, isso foi mais acentuado ainda, com a mulher ocupando inclusive posições nos transportes públicos, nas fábricas de munições e também nos exércitos.

Finda a guerra, os homens voltaram para ocupar os cargos que exerciam, e uma parte da mão de obra feminina foi desprezada. Aquelas que continuaram trabalhando tinham salários abaixo do dos homens.zai

Começou a despertar, na mulher, o sentimento de que, “se posso tanto quanto o homem, por que ganhar menos?” Ao mesmo tempo, o desenvolvimento econômico pós-guerra necessitava de mais operários. Foi a partida do movimento que viria a se chamar “feminismo”, ou “movimento feminista”.

Nesse contexto, é particularmente importante o ano de 1951:

  • seis anos após o fim da guerra, foi fundada a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, incluindo a Alemanha e a Itália, iniciando uma época de  distensão política;
  • nas ciências, foi feita a primeira experiência com circulação extracorpórea e iniciada a produção em série do primeiro computador (UNIVAC);
  • nas artes, aconteceu a primeira Bienal de São Paulo.

Também nesse ano, o movimento feminista passou a tomar mais e mais vulto:

  • as “musas do cinema” da época, começaram a desfilar de biquíni, num desafio aos costumes da época;
  • no Brasil, ocorreu o primeiro congresso da Federação das Mulheres do Brasil;
  • na Argentina, pela primeira vez, houve o voto feminino;
  • a Organização Mundial do Trabalho determinou que o homem e a mulher deveriam ter igualdade de remuneração no trabalho.

E foi nesse ambiente, ainda convulsionado econômica, política e socialmente, que os pesquisadores americanos John Rock e Gregory Pincus, a senhora Katharine McCormick (herdeira da fortuna da empresa International Harvester) e a enfermeira Margaret Sanger (amiga de Katharine) se encontraram durante um jantar em Nova York. As duas senhoras, feministas de primeira hora, eram altamente favoráveis ao controle de natalidade e ao direito de autodeterminação da mulher. E a sra. McCormic financiou as pesquisas iniciais da pílula.

Os pesquisadores se basearam em descobertas de laboratórios alemães (Shering AG), que, em 1938, sintetizaram  o etinil estradiol (similar oral do hormônio feminino estradiol e utilizado até hoje em algumas pílulas anticoncepcionais) e a ethisterona (similar da progesterona).

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Em 1957, após o consumo estimado de 2 milhões de dólares da Sra. McCormick e uma série de pesquisas feitas com mulheres de Porto Rico, foi lançada no mercado dos Estados Unidos a primeira marca de anticoncepcional, o Enovid. (foto: https://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/features/pill-gallery/).

A pílula foi proibida vigorosamente pela Igreja católica. O medicamento, politicamente, foi lançado como “regulador do ciclo menstrual”, sendo colocada propositalmente sua qualidade de anovulatório como efeito colateral. Além disso, foi também indicado para mulheres casadas que não queriam filhos. Evidentemente, não seria possível indicá-lo para mulheres não casadas, pois “não havia sexo antes do casamento”.

O Enovid foi reconhecido como anticoncepcional apenas em 1960. E, em 1961, foi introduzido na Alemanha Ocidental o Anovlar (foto: https://muvs.org/en/topics/contraception/fulfilled-and-unfulfilled-wishes-museum/) , que tinha um terço da quantidade de etinil estradiol do Enovid, e produzia menos efeitosdav colaterais.

Querendo-se ou não, houve uma grande revolução para a mulher com o advento do anticoncepcional. Embora a pílula não tenha iniciado o movimento feminista, deve a ele muito de sua descoberta.

Nos dias de hoje, os anticoncepcionais são um negócio de muitos dólares. O controle da natalidade deixou de ser o foco da propaganda  (curiosamente, o mesmo que ocorreu no lançamento da pílula!). As principais ferramentas de venda passaram a ser os efeitos secundários desejáveis que as novas pílulas podem proporcionar: melhora da textura da pele, acentuação da feminilidade, redução das cólicas menstruais, redução do próprio fluxo menstrual e melhora de problemas de humor relacionados à menstruação (tensão pré-menstrual).

 Produção: Luiz Leite

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